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Fundo
Fernando Pessoa
Cota
BNP-3, 103 – 32 – 34
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[Sobre a Nova Poesia Portuguesa]
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Autor
Fernando Pessoa

Identificação

Titulo
[Sobre a Nova Poesia Portuguesa]
Titulos atríbuidos
Idioma
Português
Edição / Descrição geral

[BNP/3, 103 – 32 – 34]

 

IV –

Seguindo o método estabelecido na segunda secção deste artigo, o nosso raciocínio, incidindo directamente sobre a obra dos poetas portugueses de hoje devia poder deduzir, com aproximada facilidade, as ideias metafísicas orgânicas no seu espírito. Acontece, porém, que a complexidade {…} da nossa actual poesia torna essa análise directa muito difícil. A primeira constatação que, com efeito, o raciocínio faz ao analisar a nossa nova poesia, para lhe achar a base metafísica, é a da fluidez, incerteza e carácter indefinido dessa metafísica. É perto de impossível encontrar os nossos novos poetas fixos sobre um ponto qualquer de metafísica: nem a ideia que fazem de Deus se apresenta de princípio nítida, nem sequer é deduzível das suas obras. Se têm ou não ideias de algum modo definidas sobre, suponha-se, a imortalidade da alma e o carácter da vontade. A única constatação que a análise directa da nossa nova poesia pode sem custo fazer é que a essa poesia se apresenta como (1) panteísta (2) não-materialista. Para além desta quase que visual constatação, o problema toma uma complexidade que desconcerta e perturba.

Sendo isto assim, vemo-nos forçados, para elucidação do problema, a orientar de outro modo a nossa análise. A dificuldade de a fazer directamente leva-nos a concluir que, com mais probabilidade de segurança, só a poderemos fazer diferencialmente. Mas diferencialmente como? Seguindo a linha evolutiva da poesia europeia, destacando os períodos culminantes desta[1] poesia, fixando a linha {…} dessa evolução, os característicos do último grande período, e depois, comparando a nossa nova poesia a esse, perante o qual ela se deve mostrar fatalmente, ou uma decadência, ou uma reacção, ou uma continuação superior, um novo estádio evolutivo. Autoriza-nos a esta análise diferencial o facto de, estando Portugal integrado na civilização europeia, a sua poesia o estar também, inevitavelmente e por isso a significação |essencial| dessa poesia só se poder obter, na sua essência última sociológica ou estética, por uma comparação com o período literário geral que a precedeu ou a acompanhou na poesia da Europa.

Precisamos, portanto, antes de tudo, fixarmo-nos

 

[33r]

 

sobre quais sejam esses períodos capitais da história literária da Europa. Não é difícil conhecê-los. Num período literário tudo está ligado, e à grandeza do período corresponde, infalivelmente, a grandeza individual dos seus representantes. Escusamos, mesmo, de nos deter no exame do |número| desses grandes representantes, em cada período. Basta tomar conta intelectual do representante máximo de cada período e compará-lo aos representantes máximos dos outros períodos. É uma questão de atitude. Assim, a crítica literária é unânime em dar os lugares máximos da poesia a Homero (independentemente de qualquer discussão da sua individualidade) e a Shakespeare. Representarão as estaturas desses a atitude literária geral dos seus períodos? Sem dúvida, porque a literatura da Grécia e a da Renascença são os dois magnos períodos da literatura mundial.

 

Ora na literatura da Europa há só dois períodos a que se pode chamar grandes sem escrúpulos de adjectivador. O primeiro é a Renascença, entendendo por Renascença o movimento para o nosso caso apenas o literário, que começa em Dante e Petrarca e acaba em Milton. O segundo é o Romantismo, entendendo por romantismo o movimento literário principiado na Alemanha, com a sua culminância em Goethe, continuado na Inglaterra, figura máxima, Shelley, e acabando em França, com Victor Hugo por ponto principal. O “romantismo” dos outros países é como, além de inferioríssimo e dependente destes, nalguns casos com outra significação. Isso não importa agora. Cinjamo-nos à corrente central.

Antes de prosseguirmos é preciso, porém, –sobretudo para obter conclusões que no fim deste artigo se verão –

 

[34v]

 

que obtenhamos uma noção segura do valor comparativo[2] da Renascença e do Romantismo. Um argumento de há pouco já estabeleceu que a Renascença é superior ao Romantismo. Nesse caso que valor tem, ante a Renascença, como vindo após ela, o movimento Romântico? Visto que o seu valor é inferior, ele só pode ser uma de três coisas: ou uma decadência da Renascença, ou uma reacção contra a Renascença, ou o princípio de uma nova Renascença contra a Renascença, ou o princípio de uma nova Renascença que em sua culminância será superior, mas em seu suposto início – o Romantismo – acusa já muita[3] superioridade. Vejamos. Partindo da constatação, que adiante se fará – e que é tão evidente que quase se pode dar como feito incontestado – de que o espiritualismo puro e simples é a metafísica essencial da Renascença, torna-se |evidente| que se o romantismo é uma decadência da Renascença, não pode a sua metafísica ser senão uma decadência do espiritualismo, isto é, não pode conter elementos outros do que espiritualistas. Mas o Romantismo contém constitutivamente um elemento panteísta – pouco importa por enquanto se puro ou não. Se tem um elemento a mais, não pode ser portanto uma decadência da Renascença. – Tampouco pode ser uma Reacção contra a Renascença. Se o fosse a sua metafísica seria inteiramente oposta à da Renascença, isto é, seria de todo anti-espiritualista. Ora, como veremos, o elemento espiritualista, quer sob pura forma espiritualista (Victor Hugo) quer |esticado| até ao idealismo (Shelley) – encontra-se presente, ao lado do elemento panteísta, na poesia representativa dos românticos. Não é, pois, o Romantismo uma reacção contra a Renascença: envolve, sim, de resto, uma reacção, mas é contra outra poesia – ora espiritualista ora panteísta essa – a do século XVIII. – Por exclusão dos factos, temos, pois, implicitamente que concluir que o Romantismo é, não uma época, mas o princípio de uma época, não a sua Renascença, mas o movimento precursor dessa Renascença Nova. Constatada a inferioridade do Romantismo à Renascença, não temos outra hipótese a admitir.

 

[33v]

 

Não assinemos nada, porém. Perguntemos antes porque será assim? Porque íntima razão deverá um período literário importante ter-se importante pelo seu maior poeta? Porque razão se deverá antepor um período com um ou dois máximos poetas a outro com dez ou doze poetas menores, ainda que muito grandes? Porque não tomar o valor ao período mais por uma época da soma – soma das grandezas individuais –, do que por uma época de atitude – atitude máxima de seu poeta principal?

 

 

[1] desta /essa\

[2] comparativo/do\

[3] muita /(essa)\

Notas de edição

Apontamentos manuscritos preparatórios da secção «IV» do testemunho impresso publicado por Fernando Pessoa com o título: «A Nova Poesia Portuguesa no seu Aspecto Psicológico», in A Águia, 2ª série, nos 9, 11, 12, Porto, Setembro, Novembro, Dezembro de 1912, pp. 86-94, 153-157, 188-192.

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