Theodor W. Adorno, na sua Ästhetische Theorie (1973), admite que «nada é mais pernicioso ao conhecimento teórico da arte moderna do que a sua redução a analogias com a antiga». E avisa: «Pelo esquemático “já tudo foi dito” esgueira-se toda a sua especificidade; fica nivelada numa plácida evolução dum contínuo sem brechas, que afinal ela própria origina».

E. R. Curtius, um contraente teórico-literário de peso, anterior a Adorno, tinha considerado a questão doutro modo, segundo a sua concepção de literatura como história dum tratamento sucessivo de topoi: «O “eterno presente” que caracteriza a essência da literatura significa que a literatura do passado coexiste e colabora na de cada presente que se segue. Assim Homero em Vergílio, Vergílio em Dante, Plutarco e Séneca em Shakespeare…» (Europäische Literatur und Lateinisches Mittelalter, 1948).

Não há nenhuma incompatibilidade, apenas interesses de conhecimento diferentes.

O modo tópico-cultural de Curtius explica de maneira “filogenética” que um género se recria ao mesmo tempo que se cria, que poesia remete para poesia, pois para quê de resto? Sobre Adorno recai muito do que Pierre Campion diz a propósito de Mallarmé: «…le hasard est constitutif des effets du texte…».

Fernando Pessoa foi provavelmente  o poeta que mais conscientemente se deslocou e passeou dentro destes vários limites. É claro que, como diz Harold Bloom, os grandes poetas costumam desviar cuidadosamente a atenção das suas fontes literárias principais. Não parece porém que seja este o caso de «O trabalho honesto e superior…/ O trabalho à Vergílio, à Milton…» do poema «Apostila» de Álvaro de Campos.

A imensa cultura literária de Fernando Pessoa assentava em dois grandes pilares: a literatura de língua inglesa e os clássicos greco-latinos. Milton é o autor do «Lycidas», essas duas centenas de versos que a crítica com frequência considera serem um dos grandes tesouros da poesia inglesa: a morte do jovem, aqui Lycidas, numa travessia a nado, é motivo para uma auto-reflexão acerca da necessidade de escolha entre os prazeres sensuais da vida e os caminhos muito estreitos e exigentes da ascensão criativa; mais ou menos o que Pessoa, com um bocadinho de sofisticação teosófica, comunicou a Ofélia. Interessante é o facto de Amaryllis e Neaera serem os nomes escolhidos por Milton para  a concretização da escolha sensual. Nas «Odes» de Ricardo Reis, Neera surge pelo menos em dois casos com função próxima: «Olho os campos, Neera,/ Campos, campos, e sofro/ Já o frio da sombra/ Em que não terei olhos», datado de 25-12-1923 (também natalícia interferência?). Ou: «…Nesta hora, Lídia ou Neera ou Cloé,/ Qualquer de vós me é estranha, que me inclino/ Para o segredo dito/ Pelo silêncio incerto…», datado de 6-7-1927.

Neaera é, na III Écloga de Vergílio, e logo no início, o símbolo da atracção feminina que distrai o pastor da sua ocupação («O pastor amoroso perdeu o cajado…» - «  Infelix o semper ovis pecus! ipse Neaeram …»), e Lycidas é a pessoa central da Écloga IX, onde se retoma o tema da primeira Écloga, o da expulsão dos pastores das suas terras por motivos de rivalidades políticas, mas com a óbvia presença-ausência de Amaryllis e Galatea.

É impossível neste espaço tentar desdobrar nem que seja a ponta desta meada, caso seja certo, como se presume, que um poeta como Fernando Pessoa, na hora de proceder com outros a rupturas temáticas e estilísticas de muito tipo, não pudesse deixar de fazer figurar alguns clássicos que o distiguissem. Horácio sim, mas Horácio tem um rigor teórico (e não só) demasiado fechado e contido; para Pessoa, Ovídio é uma borboleta que não se deixa apanhar na malha de nenhuma rede; restava aquele a quem coube a triste tarefa de ter sido feito guia duma nova poética de tom teológico e condenatório: Vergílio. E, como se isso não bastasse, Jerónimo Baía, em  «Mandando ao Inquisidor Alexandre da Silva o Romance feito a Santo António, que demos no terceiro Tomo» (Fénix Renascida), chama ao dito inquisidor «Poeta mais que Vergílio»…

Bom, em Alberto Caeiro lá estão «os pastores de Vergílio» (e por que não os primeiros, os de Teócrito, que o próprio Vergílio refere?). E quem senão Vergílio tem nos mais variados lugares referência às também variadas musas que lhe vieram soprar aos ouvidos os mais variados tons? É logo o começo da sexta Écloga, a do Sileno, e ainda claramente dois ou três passos das Geórgicas. De resto, a propósito, «o homem das cidades», «o pregador de verdades dele» de Caeiro, não terá pela forma e fim da sua presença um tom que faz eco da diatribe contra o homem das cidades no fim do Canto II das mesmas Geórgicas?

Claro que nem seria preciso que «O Último Sortilégio» (ver entrada própria), datado do dia do segundo milénio do nascimento de Vergílio, com a cuidadosa cifra dos calendários diferentes, tratasse da “magia da transgressão”, atribuída durante a Idade Média ao “mago” Vergílio. Como refere David Conway: «Rumour has it that the Roman poet Virgil, who was not unacquainted with magical practice, attempted rejuvenation by this method». Ao datar este poema como o fez, e ainda ao insistir sibilinamente em que fosse mesmo publicado (apelo a uma mórbida curiosidade pela “magia da transgressão”), Pessoa estava a emular (perigosamente) Vergílio.

De resto, isso é sabido, grandes poetas com marca inovadora muito assumida, sabem ligar-se e desligar-se explicitamente da tradição, no último caso ferozmente. Vergílio, num dos poemas da juventude (este de autoria raramente contestada), o Catalepton,não faz excepção: « Ite hinc, inanes, ite, rhetorum ampullae,/ inflata rhoso non Achaico verba…» - «Ponham-se a mexer, frascos de palavras,/ com a vossa empolada retórica, mas não do ático sopro…», etc. E Fernando Pessoa, revisitando Lisboa certamente com o chapéu de chuva de Álvaro de Campos: «Não me venham com conclusões! / A única conclusão é morrer./ Não me tragam estéticas! / Não me falem em moral! / Tirem-me daqui a metafísica!», etc.  

Voltando a Milton, claro que era, como bom inglês, e como a época impunha, um ecléctico: sacudia de junto dele a melancolia («Hence, loathèd Melancholy» e ao mesmo tempo a alegria: («Hence, vain deluding joys»),  mas isto agora já só tem que ver com Pessoa se o entendermos como expressão da duplicidade ou multiplicidade de gostos comum a todo o ser humano. Ou, pelo menos, ao ser humano dito poético.

 

 

 

 Alberto Pimenta