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Fundo
Fernando Pessoa
Cota
BNP-E3, 18 – 48–49
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[Sobre arte]
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Autor
Fernando Pessoa

Identificação

Titulo
[Sobre arte]
Titulos atríbuidos
Idioma
Inglês
Edição / Descrição geral

[BNP/E3, 18 – 48–49]

 

This problem of immoral art is one that is ever cropping up, centring for the moment round one work or another which puts the vague principles involved in that problem into public focus. There are two aspects to the problem. The first is the abstract philosophical one which consists in the discussion of the relations between art and morals, the aesthetic problem of ethics, if we may so call it, or, putting it the other way, the ethical problem in aesthetics.

I am not now concerned with this problem. My object is to discuss the practical problem based upon these two elements – the problem of pornography, we may say. Should government or any authorities control or supervise the exercise of literary or artistic faculties, having regard to their possibly evil influence on the reading, seeing or hearing public? If so, on what bases will that supervision work?

We will take the problem as concerned with literature. The only classification admissible in literature, which concerns this problem is into literature proper and mere obscene writing. That obscene writing which is the script-equivalent of, say, obscene photographs, in which the only possible justification is obscenity, belongs palpably to a different species than the writing which is literary and in which either obscene elements are superimposed on the literary substructure, or inextricably interwoven with the artistic substance thereof. So that, if authorities are to interfere in this problem, they have to proceed, first, on a palpably aesthetic basis.

The question, as all questions, is of degrees. There are works which are palpably only obscene and not literary at all, such as those pamphlets, we have just named, which correspond in written manner to the obscene photographs which we also cited in parallel. And there are, at the other end, products like Venus and Adonis, like so many classical poems and prose-works; the difficulty is greatest when we meet with high works of art which are, not only immoral, but frankly apologetic for some species of immorality.

It cannot be claimed that the artistic elements involved absolve and extirpate the immorality of the work. Of the two kinds of public that read, one, the lower, does not see the artistic elements and enters into the significance of only the immoral elements

 

[49r]

 

contained in the work of art. The other portion of the reading public, that portion which is sensitive to artistic influences, and able therefore to effect a separation between the two kinds of elements which are, by hypothesis, involved in the kind of artistic work we are discussing, is not very far from the other public in reference to effects, for, if the work be really a high work of art, and the immoral elements therefore not foreign to the substance of it, but inextricably wound up with it, these immoral elements are brought all the more into prominence, inasmuch as they gain intensity, beauty and fervour through the artistic way they are put.

Venus and Adonis is very likely to excite sexual feelings in a feebly educated person; but it is, if anything, still more likely to excite them in a highly educated or highly-sensitive one. The very artistic superiority of the work ensures that effect. The principle that “to the pure all things are pure” is pure fireworks; there are no “pure”.

If we wish to prohibit the sale of immoral art, we cannot do so without prohibiting art at the same time. The problem is especially difficult when we have to consider non-extreme works, that is works which are not palpably superior from the artistic standpoint, but which also are not pure obscenity, mere obscenity and no more. When we are the Shakespeare level, we all more or less agree that it would be tantamount to violence to prohibit the circulation of immoral literature. When we are at the literary level correspondent to the obscene photograph, only the traders in it will not agree to its suppression. But when we are round the popular novelist level, the problem becomes very difficult. To a certain extent works on a literary par with Mr. Hall Caine’s or Miss Marie Corelli’s are literature; though they are unremaining literature – though several people, indeed, might claim for them a superior level. If such works convey obscenity or immorality, what is to be done to them?

 

The central fact is that the problem is elsewhere and its solution rendered impossible until we decide to see that some classification of publics must be entered into, before any light at all breaks into the discussion.

 

[48v]

 

For the essential difference between the uneducated and the educated reading of, say, “Venus and Adonis” is that, though both educated and uneducated are very possibly sensually excited to the same degree while reading the work, the after-influence differs, special cases and morbid ones being, of course, not considered. A little after finishing “Venus and Adonis”, the uneducated reader who has not been bored but kept interested by the sexual part of it, remains under the influence of that part of it which interested him, and that is the sexual one. Whereas the educated reader, once past the momentary excitement of the work, remains rather under the influence of the artistic elements.

The second distinction to be effect is between adult and non-adult public. An adult is held to be one who is able to shift for himself, which a child is not. So that, in this field, the problem becomes simple: the reading of immoral works, of whatever kind they be, should be forbidden to children, but permitted to adults.

Among adults, the distinction follows: there are the educated and the uneducated ones, and the latter are, to a certain extent, in the position of children. So that, if prohibition is to some extent to be decided on, it should be extensive only to the uneducated part of the public. The question of how that is to be effected is quite secondary and solvable, if only approximately, in several ways.

 

 

[BNP/E3, 18 – 48–49]

 

Este problema da arte imoral é algo que está sempre a surgir, girando no presente momento em torno de uma ou outra obra que traz a público os vagos princípios envolvidos nesse problema. Existem dois aspectos no problema. O primeiro é o filosófico-abstracto que consiste na discussão das relações entre arte e moral, o problema estético da ética, se o podemos chamar assim, ou, dito de outro modo, o problema ético na estética.

Não me ocupo agora deste problema. O meu objecto consiste em discutir o problema prático com base nestes dois elementos – o problema da pornografia, podemos dizer. Deverá o governo ou qualquer autoridade controlar ou supervisionar o exercício das faculdades literárias ou artísticas, tendo em vista a sua possível má influência no público leitor, observador e ouvinte? Se sim, em que bases deverá funcionar essa supervisão?

Consideraremos o problema na medida em que respeita à literatura. A única classificação admissível em literatura, que respeita a este problema, é entre a literatura propriamente dita e a mera escrita obscena. Que a escrita obscena é o equivalente escrito, digamos, das fotografias obscenas, nas quais a única justificação possível é a obscenidade, pertence palpavelmente a uma espécie diferente da escrita que é literária e na qual ou os elementos obscenos são sobrepostos à estrutura literária, ou inextricavelmente interlaçados com a sua substância artística. De forma que, se as autoridades interferirem neste problema, terão que proceder, primeiro numa base palpavelmente estética.

A questão, como todas as questões, é de graus. Existem obras que são palpavelmente apenas obscenas e não literárias, de todo, tais como aqueles panfletos que acabámos de nomear, que correspondem de um modo escrito às fotografias obscenas que também citámos em paralelo. E existem, no extremo oposto, produtos como Vénus e Adónis, tal como muitos poemas clássicos e obras em prosa; a dificuldade é maior quanto nos deparamos com obras de arte elevadas, não apenas imorais, mas francamente apologéticas de uma espécie de imoralidade.

Não se pode afirmar que os elementos artísticos envolvidos absolvem ou extirpam a imoralidade da obra. Dos dois tipos de público leitor, um, o mais baixo, não vê os elementos artísticos e acede apenas ao significado dos elementos imorais

 

[49r]

 

contidos na obra de arte. A outra parte do público leitor, a parte que é sensível às influências artísticas e apta, portanto, para efectuar a separação entre os dois tipos de elementos que estão, por hipótese, envolvidos no tipo de obra artística que estamos agora a discutir, não se encontra muito distante do outro público no que se refere aos efeitos, pois, se a obra for realmente uma obra de arte elevada e, portanto, os elementos imorais  não forem estranhos à sua substância, mas estejam inextricavelmente atados a ela, estes elementos imorais encontram-se tão mais em evidência, quanto mais ganham intensidade, beleza e fervor através do modo artístico como são apresentados.

Vénus e Adónis despertará, muito provavelmente, sentimentos sexuais numa pessoa com fraca educação; mas, muito provavelmente, os despertará ainda mais numa pessoa altamente educada ou altamente sensível. A própria superioridade artística da obra assegura esse efeito. O princípio de que “para o puro todas as coisas são puras” é simples fogo de artifício; não existem “puros”.

Se desejamos proibir a venda de arte imoral, não o podemos fazer sem proibir, ao mesmo tempo, a arte. O problema é especialmente difícil quando temos de considerar obras que não sejam extremas, isto é, obras que não são palpavelmente superiores do ponto de vista artístico, mas que também não são pura obscenidade, mera obscenidade e nada mais. Quando estamos ao nível de Shakespeare, todos estamos mais ou menos de acordo que equivaleria a uma violência proibir a circulação de literatura imoral. Quando estamos ao nível literário correspondente à fotografia obscena, apenas os seus comerciantes não estarão de acordo com a sua supressão. Mas quando nos aproximamos ao nível do romancista popular, o problema torna-se muito difícil. Até certo ponto, obras ao nível literário de Mr. Hall Caine ou Miss Marie Corelli são literatura; embora seja uma literatura insubsistente – contudo muitas pessoas poderão, de facto, reivindicar para elas um nível superior. Se tais obras transmitem obscenidade, o que deveremos fazer-lhes?

 

O facto central é que o problema se encontra noutro lado e a sua solução é impossível até que decidamos ver que é necessária uma classificação do púbico, antes de lançar alguma luz sobre a discussão.

 

[48v]

 

Pois a diferença essencial entre a leitura não educada e educada de, por exemplo, “Vénus e Adónis” consiste em, apesar de ambos o educado e o não educado serem muito provavelmente excitados sensualmente no mesmo grau enquanto lêem a obra, a influência posterior difere, sem considerar, é claro, casos especiais e mórbidos. Um pouco depois de terminar “Vénus e Adónis”, o leitor não educado que não se tenha aborrecido, mas se tenha mantido interessado pela sua parte sexual, permanece sob a influência daquela parte que o interessa e essa é a sexual. Enquanto o leitor educado, uma vez passada a excitação momentânea da obra, permanece antes sob a influência dos elementos artísticos.

A segunda distinção a ser feita é entre público adulto e não adulto. Considera-se que um adulto é aquele que é capaz de se mudar a si próprio, o que a criança não consegue fazer. De modo que, neste campo, o problema se torna simples: a leitura de obras imorais, qualquer que seja o seu género, deve ser proibida a crianças, mas permitidas a adultos.

Entre os adultos, aplica-se a seguinte distinção: existem os educados e os não educados e os últimos encontram-se, até certo ponto, na posição das crianças. De forma que, se a proibição deve até certo ponto ser decidida, deverá apenas estender-se à parte não educada do público. A questão de como é que isso deve ser efectuado é muito secundária e solúvel, ainda que apenas de um modo aproximativo, de várias formas.

 

Notas de edição

Classificação

Categoria
Literatura
Subcategoria
Arte

Dados Físicos

Legendas

Documentação Associada

Bibliografia
Publicações
Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Edições Ática, 1966, pp. 57-60.

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