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Fundo
Fernando Pessoa
Cota
BNP-E3, 19 – 31-34
Imagem
[Sobre a arte moderna]
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Autor
Fernando Pessoa

Identificação

Titulo
[Sobre a arte moderna]
Titulos atríbuidos
Idioma
Português
Edição / Descrição geral

[19 – 31-34]

 

Lembrou-se, há um tempo para cá, certa gente, degenerada por natureza e crítica por predilecção, de protestar, cada qual com o mau modo que lhe é modo, contra a obscenidade e a confusão desta ou daquela “literatura”, destoutra ou daqueloutra poesia moderna, etc.

Isto, além de revelar a tendência para ter opiniões sobre qualquer assunto, que é um dos mais |nítidos| estigmas psíquicos de degenerescência, amostra, paralelamente, o hábito mental de não ter ideias, e expor ao público as ideias que se não tem.

Assim, neste ponto, nada curaram os autores dos diversos atentados críticos em ver o que seria a obscenidade e a confusão, não se detiveram em procurar o valor real dessa moeda artística. Nem sequer perguntaram a si-próprios se na realidade o ser obsceno e confuso não seria mais natural e são do que escrever com clareza e lucidez.

 

[32r]

 

De duas coisas uma: ou a ideação literária deve, ou não deve, seguir a norma da ideação vulgar. Ou por ser ideação deve ser apenas um grau superior da ideação normal, ou, por ser literária, e não vulgar, deve ser um género diferente de ideação.

Que caracter tem, vista sob o aspecto de se é confusa ou não, a ideação vulgar?

Sendo a ideação vulgar aquela que aparece nas conversas vulgares, é nesta prosa de conversa que temos de a fotografar.

Que carácter têm as ideias conforme expostas numa conversa usual?

São perfeitamente nítidas? Não o são. Tanto o não são que as discussões são geralmente intermináveis, sendo apenas |modos| de dois ou mais indivíduos levarem muito tempo a chegar a perceber que se não percebem uns aos outros, algumas vezes que se não percebem a si-próprios, raras e |ilustres| vezes que não percebem nada.

São perfeitamente confusas? Não são. Se o fossem não só não achariam expressão nas palavras do próprio indivíduo, nem haveriam[1] consigo, ao serem ex-

 

[33r]

 

pressas, aquela quota-parte de compreensibilidade que habilita o interlocutor a julgar que as percebe |ou as não compreende.|

A ideação de conversa é portanto ao mesmo tempo nítida e confusa. Em que é que nítida, e em que é confusa? Vejamos. Se ela não fosse nítida na ideação da ideia o indivíduo, não tendo essa ideia, não a poria em palavras, porque nem toda a gente pode ser[2] como o Sr. |Maeterlinck|, constantemente a expor ideias que não tem. Se ela fosse nítida na ideação da expressão da ideia, o interlocutor perceberia o que se diz – o que nunca acontece, e, dado que |soubesse o pensamento| sobre o assunto, poderia, logo de princípio, dizer se estão ou não naquela espécie de divergência de si próprios que se chama estar de acordo com outra pessoa.

De modo que chegamos a isto: que a ideação vulgar é nítida na ideação da ideia e confusa na ideação da expressão dessa ideia.

Ora, a ideação artística, sendo ou um prolongamento, ou uma inversão da ideação normal –

 

[34r]

 

uma das duas coisas há de ser, porque aqui não se pode ser duas coisas opostas, como os católicos são espiritualistas[3] e |materialistas|, tem de ser ou – é o caso do prolongamento – , como aquela nítida na ideia e confusa na expressão, ou — e é o caso da inversão — nítida na expressão e confusa na ideia. No primeiro caso temos uma ideia nítida expressa confusamente, o que dá confusão, visto que a ideia, ao ser expressa, se torna confusa; e no 2º caso temos uma ideia confusa expressa nitidamente, o que dá confusão também, visto que uma ideia confusa não pode dar senão confusão, de qualquer modo que seja expressa.

 

 

[1] haveriam /trariam\

[2] ser /estar\

[3] espiritualistas /cristãos\

Notas de edição

Classificação

Categoria
Literatura
Subcategoria

Dados Físicos

Legendas

Documentação Associada

Bibliografia
Publicações
Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Edições Ática, 1966, pp. 162-164.

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