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Fernando Pessoa
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BNP/E3, 14B – 32-35
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[Sobre Alberto Caeiro]
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Autor
Fernando Pessoa

Identificação

Titulo
[Sobre Alberto Caeiro]
Titulos atríbuidos
Idioma
Português
Edição / Descrição geral

[BNP/E3, 14B – 32-35]

 

Chamaram-no os Deuses, ainda tão novo, à região inferior onde a mágoa não chega e onde o prazer não desce. Sem dúvida que o fizeram pelo dom evidente da sua sabedoria não perfeita, mas mais perfeita que a nossa. Aqueles actores {…} de que somos apenas os títeres, sabem, em sua razão maior[1], porque influxo das estrelas, buscou tão cedo à terra-origem o seu filho que mais a amou. Tudo nos é velado, sonho, entre um sono e outro sono, esta curta visão radiosa do imperfeito e completo[2] universo.

 

É difícil escrever com paciência de todos os imitadores de uma imitação do paganismo.

 

Talvez nunca vereis tão a propósito citar aquela fábula de Colombo e do ovo.

 

[32v]

 

O tom “moderno” de muitos dos seus versos é o que mais lamento. Nenhuma obra tem direito a que a coloquemos no tempo.

 

O traço franciscano de alguns resultados métricos da sua sensibilidade. S. Francisco de Assis o abominável fundador de uma seita abominável.

 

O seu paganismo é ateu. É apenas paganismo. Nem o Destino, o Senhor[3] anterior aos Deuses, aparece na sua obra.

 

O máximo da simplicidade com o máximo da originalidade. É tão simples, que é complexo para nós, que estamos habituados a chamar simplicidade à complexidade.

 

[33r]

 

Por detrás de todas as variações permanece, inalterável substância de uma forma mutante, um conceito do universo especialmente pagão, e que as modas não atingem. É difícil fazer ver isto – como qualquer outra coisa – a quem não o sente. A indiferença à dor, o aceitamento orgulhoso, posto que passivo, do destino, não basta para formar um estóico: falta o estoicismo. A busca, embora moderada, de prazeres, céptica para com outra espécie de benefícios a esperar do mundo, não é suficiente para que o seu cultor mereça o nome de epicurista: falta o epicurismo. Do mesmo modo a aceitação de muitos deuses – que outra coisa não monta a hagiolatria do cristismo católico – sendo suficiente para sintoma de politeísmo, não basta para que esse politeísmo se possa considerar como idêntico ao dos pagãos: falta o paganismo.

Em alberto Caeiro vemos a substância sem os atributos. Caeiro não tem a sensibilidade pagã, porque não vive num meio pagão. O que há nele de maravilhoso é que também não tem a sensibilidade cristã. Isto o distingue de todos quantos – desde a Renascença até hoje – quiseram recrear-se pagãos.

 

[34r]

 

Os conceitos modernos do paganismo têm de comum, que, mesmo quando são intuições justas, são intuições incompletas. Em todos os casos se tomou um dos membros físicos pela causa espiritual, um dos atributos pela substância. O mal está em que, em nenhum dos casos, a intuição abrangeu mais que, de cada vez, um só atributo.

Assim, os cultores modernos do paganismo têm procurado imitá-lo, ou através de uma impassibilidade especial que se lhes afigurou ser o distintivo dos espíritos pagãos; ou através de uma moral imoral, que se lhes {…}

 

Enfermaram de três coisas: o não poder conceber o paganismo se não em antagonismo, e portanto em relação, ao cristismo; o não poder ver o paganismo na sua substância, mas só através dos seus atributos e, ainda assim, em geral através de determinado atributo só e não da soma deles todos; e {…}

 

Como o cristismo ao mesmo tempo que se opõe ao paganismo, descende dele, é fácil conceber o paganismo através de uma ou outra das {…} crististas por dele derivar; mas o conceito assim formado enferma radicalmente de ter sido concebido a dentro do próprio instinto cristista de que se procura desvestir.

 

[34v]

 

Não vou entrar, evidentemente, em um[a] análise diferencial do espírito pagão, e do cristista. Obra era essa para um livro, e não pequeno. O meu propósito, neste lugar, é definir em que é que Alberto Caeiro é o reconstrutor do paganismo, o revelador da sua essência perdida; para o fazer tenho de indicar claramente qual é essa essência depois em que é que, até Caeiro, se perdeu na obra que ele conseguiu.

 

Pode imitar-se a “impassibilidade” suposta pagã {…}

 

A objectividade grega, porém, não pode ser, em si, na sua essência, nem nos seus efeitos, imitada por quem não a tenha. Só a pode ter quem tiver os sentidos da natureza construídos[4] de modo que |sinta| objectivamente.

 

Caeiro é mais objectivo que os gregos antigos porque:

(1) a sua obra é uma reacção e é por isso uma afirmação mais forte que a original; sendo por isso menos espontânea.

(2) {…}

 

[35r]

 

O característico essencial da mentalidade pagã é a objectividade absoluta. Os outros característicos, que lhe têm sido encontrados, são efeitos daquela causa imanente. É um ou outro desses atributos que, de a Renascença até hoje, os modernos têm visto, e têm procurado imitar.

 

Uns têm procurado fazer de pagãos, ou imitar os pagãos, educando-se em uma objectividade puramente visual; a objectividade pagã era, porém, não só visual, como na verdade temperamental. Não era só o uso perfeitamente objectivo da vista, ou o de outro sentido qualquer; era a objectividade essencial de que aquelas eram apenas as manifestações |sensíveis|.[5]

 

Era preciso ir mais longe – despir-se do hábito cristão de colocar a realidade dentro de nós[6]; passar a viver da sensação para fora, e não da sensação para dentro, como é nosso hábito em Cristo.

 

Ora isto, mesmo que alguém o houvesse visto, não o poderia fazer qualquer, por um esforço qualquer de inteligência ou de disciplina. Era mister nascer como uma organização interior do espírito adaptada a ter, espontaneamente, uma sensibilidade assim orientada.

 

 

 

[1] maior /mais lata\

[2] imperfeito /perfeito\ e completo /incompleto\

[3] o Senhor /a Vontade\

[4] construídos /(constituídos)\

[5] |sensíveis| /nos sentidos\

[6] colocar a realidade dentro de nós /fazer a realidade começar em nós\

Notas de edição

Classificação

Categoria
Literatura
Subcategoria

Dados Físicos

Legendas

Documentação Associada

Bibliografia
Publicações
Fernando Pessoa, Poemas Completos de Alberto Caeiro, Edição de Teresa Sobral Cunha, Lisboa, Presença, 1994, pp. 183-185.

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