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Fundo
Mário de Sá-Carneiro
Cota
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Carta a Fernando Pessoa
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Autor
Sá-Carneiro, Mário de

Identificação

Titulo
Carta a Fernando Pessoa
Titulos atríbuidos
Carta a Fernando Pessoa
Edição / Descrição geral

Carta a Fernando Pessoa, enviada de Paris, a 21 de Janeiro de 1913.

 

16

 

Paris 21 janeiro 1913

Meu querido amigo,

 

Vai sendo relativamente longo o seu silêncio – apenas relativamente, sublinho.

E como à minha disposição de espírito apetecem neste instante alguns minutos de palestra com um amigo duplamente querido – pela amizade e pelas «ideias», lembrei-me de lhe escrever esta carta banal, desinteressante e rápida.

Vou vivendo como sempre, olhando muito para mim, sonhando «além» para logo, cepticamente, encolher os ombros e prosseguir sonhando... A eterna dobadoura... símbolo mesquinho, mas ai, bem real da existência. Pelo menos da minha existência. Dobadoura ou cata-vento? Não sei. E tudo isto é tão triste, tão triste...

O Ramos – ignoro se já lho disse – escreveu-me do Rio e vai voltar a Lisboa por fevereiro.

Sabe que o Santa-Rita descobriu um Fernando Pessoa aqui? E eu concordei com a descoberta. Ainda ontem se assentou junto de nós num café do Bairro Latino. Aliás não o conhecemos. Porque este Fernando Pessoa se resume num rapaz que o faz lembrar, a você. Faz mesmo lembrar muito. Não tanto nos traços fisionómicos detalhados como no «ar», na expressão, em certo gesto-tique de atitude imóvel, rosto encostado ao braço, muito característico em você. Compreende? E assim eu estimo vê-lo. Porque fluidos simpáticos e saudosos flutuam envolvendo-o – porque a sua presença me faz recordar, enfim, um amigo querido. E estas evocações, ninharias, são muito doces, creia, no entanto.

Que se passa renascentemente por aí?

A Grande Ave quebraria as asas ungidas de mistério, bêbada de luz? Desculpe o palavreado, que esse, na verdade é que é dum bêbado. Mas bem sabe que abomino o álcool. É talvez da chuva – excesso de água. Porque chove muito hoje. Um horror.

A grande ave em questão, decerto percebeu, é A Águia que segundo julgo está paralisada. Os porquês!?

E essa gente? Lacerdas, Beirões, Santas-Ritas, Ponces, Ferros?... (heterogénea mistura!), Castañés & C.a, caricatural? Diga coisas.

Abomino o álcool. Não fumo. Não jogo. Não me inoculo de morfina ou cocaína. O absinto sabe-me mal. Janto todos os dias a horas diferentes em restaurantes diversos. Como pratos variados. Ora me deito às 3 da manhã, ora às 9 da noite. Sou incapaz de ter horas para coisa alguma, de ter hábitos. E é por isto que não fumo, que não jogo etc. Os vícios são hábitos, apenas são maus hábitos.

Eu sou tão renitente aos hábitos que estou couraçado de aço fantástico para os vícios. Nunca poderei ser um vicioso da mesma forma que nunca serei um homem regrado...

Mas francamente, ao escrever esta carta, pareço abismado num Atlântico de carrascão!...

Na minha psicologia deveras emeandrada há coisas interessantes que lhe detalharei de vez em quando, muito por alto, em paga dos seus estudos. Olhe, por exemplo: a impossibilidade de renunciar. Escute:

Eu decido correr a uma provável desilusão. E uma manhã, recebo na alma mais uma vergastada – prova real dessa desilusão. Era o momento de recuar. Mas eu não recuo. Sei já, positivamente sei, que só há ruínas no termo do beco, e continuo a correr para ele até que os braços se me partem d’encontro ao muro espesso do beco sem saída. E você não imagina, meu querido Fernando, aonde me tem conduzido esta maneira de ser!... Há na minha vida um bem lamentável episódio que só se explica assim. Aqueles que o conhecem, no momento que o vivi, chamaram-lhe loucura e disparate inexplicável. Mas não era, não era. É que eu se começo a beber um copo de fel, hei-de forçosamente bebê-lo até ao fim. Porque – coisa estranha! – sofro menos esgotando-o até à última gota, do que lançando-o apenas encetado. Eu sou daqueles que vão até ao fim. Esta impossibilidade de renúncia, eu acho-a bela artisticamente, hei-de mesmo tratá-la num dos meus contos, mas a vida é uma triste coisa. Os actos da minha existência íntima, um deles quase trágico, são resultantes directos desse triste fardo. E coisas que parecem inexplicáveis, explicam-se assim. Mas ninguém as compreende. Ou tão raros...

Se fui levado a estas divagações é que presentemente numa circunstância análoga me encontro. Lancei-me na carreira a uma ilusão dourada – pobre ilusão! Ela podia entretanto ser uma realidade. Mas antes de ontem lá recebi, mais uma vez, a vergastada n’alma. E continuo a correr...

Depois sinto-me tão pequeno, tão fraco, tão pouca coisa...
E sempre um calafrio na espinha, arrepiante, esterilizante...
E é nestes momentos ainda assim que – ó miséria! – encontro um pouco de cor-de-rosa na vida...
Literatura... literatura...
Não! Eu não tenho culpa de ser assim!
«Triste produto» me chamava uma noite chuvosa deste outono um amigo querido – hoje bem longe. E tinha razão...

Quanto a mim, em todas as almas há coisas secretas cujo segredo é guardado até à morte delas. E são guardadas, mesmo nos momentos mais sinceros, quando nos abismos, nos expomos, todos doloridos, num lance de angústia, em face dos amigos mais queridos – porque as palavras que as poderiam traduzir seriam ridículas, mesquinhas, incompreensíveis ao mais perspicaz. Estas coisas são materialmente impossíveis de serem ditas. A própria Natureza as encerrou – não permitindo que a garganta humana pudesse arranjar sons para as exprimir – apenas sons para as caricaturar. E como essas ideias-entranha são as coisas que mais estimamos, falta-nos sempre a coragem de as caricaturar. Daqui os «isolados» que todos nós, os homens, somos. Duas almas que se compreendam inteiramente, que se conheçam, que saibam mutuamente tudo quanto nelas vive – não existem. Nem poderiam existir. No dia em que se compreendessem totalmente – ó ideal dos amorosos! – eu tenho a certeza que se fundiriam numa só. E os corpos morreriam.

Literatura!... Eis a ideia de mais um conto...

É curiosa esta função do cérebro-escritor. De tudo quanto em si descobre e pensa faz novelas ou poesias. Mais feliz que os outros para quem as horas de meditação sobre si próprio são horas perdidas. Para nós, elas são ganhas. Menos nobres só. O desperdício é nobre. O interesse vil. E o artista é mais interesseiro do que o judeu. Tudo – cenários, pensamentos, dores, alegrias – se lhe transforma em matéria de arte!... Ganha sempre!

Tristes coisas!
Grandes coisas!...
Que orgulho! Que orgulho!...

Perdoe-me este caos, perdoe-me do coração e escreva-me depressa, muito depressa, sim? Fale do que lhe digo, faça referências a esta bebedeira.

Um grande abraço.

o seu muito, muito amigo
Sá-Carneiro

50, rue des Écoles Grand Hotel du Globe

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Notas de edição
Identificador
https://modernismo.pt/index.php/arquivo-almada-negreiros/details/33/5257

Classificação

Categoria
Espólio Documental
Subcategoria
Correspondência

Dados Físicos

Descrição Material
Tinta preta sobre 3 folhas pautadas e timbradas (Brasserie Universelle, Paris) e sobrescrito.
Dimensões
Legendas

Dados de produção

Data
1913 Jan 21
Notas à data
Inscrita.
Datas relacionadas
Dedicatário
Destinatário
Fernando Pessoa
Idioma
Português

Dados de conservação

Local de conservação
Biblioteca Nacional de Portugal
Estado de conservação
Bom
Proprietário
Biblioteca Nacional de Portugal
Historial

Palavras chave

Locais
Paris
Palavras chave
Nomes relacionados

Documentação Associada

Bibliografia
Publicações
Sá-Carneiro, Mário de, Cartas de Mário de Sá-Carneiro a Fernando Pessoa, ed. Manuela Parreira da Silva, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001.
Exposições
Itens relacionados
Esp.115/4
Bloco de notas
Na transcrição das cartas: a ortografia foi actualizada e as gralhas evidentes corrigidas, mantendo, contudo, as elisões com apóstrofo e todas as singularidades da pontuação usada por Mário de Sá-Carneiro, bem como a forma original das datas, muitas vezes com o nome dos meses em letra minúscula ou abreviado. O título da revista Orpheu foi mantido na forma sempre usada por Sá-Carneiro – Orfeu. Foram mantidas, igualmente, as versões de versos e de outros trechos literários mais tarde corrigidos ou refundidos pelo poeta.